Emoções em tempo real: estudo revela como solidão, autocontrole e ambiente moldam o bem-estar de adolescentes
Pesquisa acompanhou jovens ao longo do dia e mostra que estar sozinho aumenta emoções negativas, enquanto autocontrole e convivência familiar favorecem o equilíbrio emocional.

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Um estudo internacional conduzido por pesquisadores da Universidade de Lausanne, na Suíça, traz novos dados sobre como adolescentes vivenciam e regulam emoções no dia a dia. A pesquisa acompanhou 62 adolescentes do sexo masculino, entre 12 e 17 anos, monitorados em tempo real por meio do celular, e revela que estar sozinho está associado a menos emoções positivas e mais emoções negativas, enquanto o autocontrole momentâneo funciona como um importante fator de proteção emocional.
Publicado em janeiro de 2026 na revista científica PLOS Mental Health, o estudo utilizou a metodologia conhecida como Experience Sampling Method (ESM). Ao longo de nove dias, os participantes responderam questionários quatro vezes ao dia, relatando o que estavam sentindo, onde estavam e com quem.
Emoções sob influência do contexto
Os dados mostram que o ambiente social exerce papel decisivo no bem-estar emocional. Quando estavam sozinhos, os adolescentes apresentaram queda significativa na intensidade de emoções positivas e aumento das emoções negativas. Já na presença de amigos ou familiares, os níveis de emoções positivas foram mais altos e os negativos, mais baixos.
“Nossos resultados reforçam a importância do contexto social na construção da experiência emocional durante a adolescência”, afirma o psiquiatra Sébastien Urben, autor sênior do estudo. “A presença de pessoas próximas parece funcionar como um amortecedor emocional contra sentimentos negativos.”
O estudo também identificou diferenças entre ambientes familiares e externos. Em locais externos, como espaços públicos, os adolescentes relataram emoções positivas mais intensas e maior capacidade de diferenciar emoções negativas, um indicador associado a melhor saúde mental.
Ajustamento psicológico e risco emocional
Outro achado relevante está relacionado aos chamados problemas de ajustamento, que incluem dificuldades emocionais e comportamentais. Jovens com pontuações mais altas nesses indicadores apresentaram redução expressiva das emoções positivas, independentemente do contexto.
Estatisticamente, a cada aumento nos problemas de ajustamento, houve uma queda média de 0,81 ponto na intensidade das emoções positivas, segundo os modelos de regressão utilizados pelos pesquisadores.
“A diminuição de emoções positivas é um marcador importante de sofrimento psicológico na adolescência”, explica Umberto Cauzo, primeiro autor do artigo. “Esse padrão pode sinalizar risco aumentado para transtornos mentais.”
Autocontrole como fator-chave
Entre todos os fatores analisados, o autocontrole momentâneo se destacou como um dos mais consistentes. Quando os adolescentes relataram maior capacidade de controlar impulsos e manter o foco, houve aumento significativo das emoções positivas e redução das negativas, mesmo em situações adversas.
Os dados indicam que, a cada ponto de aumento no autocontrole, houve uma redução média de 0,19 ponto nas emoções negativas e um aumento de 0,28 ponto nas emoções positivas.
“O autocontrole parece atuar em tempo real, ajudando o adolescente a lidar melhor com desafios emocionais imediatos”, destaca Urben. “Isso sugere que intervenções focadas nessa habilidade podem ter impacto direto no bem-estar cotidiano.”
Para os autores, os resultados reforçam a necessidade de estratégias preventivas em saúde mental, especialmente em ambientes escolares. Programas que promovam habilidades socioemocionais, fortalecimento de vínculos e desenvolvimento do autocontrole podem reduzir o risco de sofrimento psicológico nessa fase da vida.
“Entender como as emoções funcionam no cotidiano é essencial para criar intervenções mais eficazes e próximas da realidade dos jovens”, conclui Cauzo .
Apesar de se tratar de um estudo com número limitado de participantes e apenas adolescentes do sexo masculino, os pesquisadores avaliam que os dados oferecem evidências robustas sobre o papel do ambiente social e do autocontrole na saúde emocional dos jovens — um tema cada vez mais urgente diante do crescimento dos problemas de saúde mental na adolescência.
Referências
Cauzo U, Constanty L, Glaus J, Giovannini J, Abi Kheir M, Miano G, et al. (2026) Examinando dinâmicas emocionais específicas na vida diária de adolescentes do sexo masculino: um estudo com método de amostragem de experiência. PLOS Ment Health 3(1): e0000513. https://doi.org/10.1371/journal.pmen.0000513